Entre 26 e 28 de setembro, uma ação inédita faz manejo de quatis no Campeche, no Monumento Natural Municipal da Ilha, em Florianópolis. A Associação Couto Magalhães de Preservação da Ilha do Campeche (ACOMPECHE) propõe o projeto, com apoio da Floram e de outras instituições, para gerar dados técnicos sobre a população da espécie e testar protocolos de manejo reprodutivo. Quatro machos passaram por vasectomia, e a nota oficial não informa valores investidos.

Ação inédita faz manejo de quatis no Campeche e testa protocolos
Pensado como projeto piloto, o trabalho de campo reuniu captura monitorada, avaliação veterinária e coleta de amostras biológicas. A meta é produzir informações técnicas que hoje não existem sobre os quatis (Nasua nasua) que vivem na Ilha.
Você deve estar se perguntando por que a Ilha fechou para visitação nesses dias. A medida fez parte do plano de contingência e buscou proteger equipe e visitantes, já que lidar com animais silvestres em campo exige cuidado redobrado.
Como os quatis chegaram à Ilha e por que preocupam
Os quatis foram introduzidos por ação humana, com relatos que remontam à década de 1950. A espécie tem grande plasticidade ecológica, ou seja, se adapta bem a diferentes condições e recursos. Relatos técnicos apontam pressão sobre a fauna nativa, mas nenhum estudo sistemático mediu esses efeitos até hoje.
A convivência com turistas pesa na decisão. Alimentos de consumo humano alteram o comportamento natural dos animais e os aproximam das áreas de uso público, em especial na alta temporada. Isso eleva o risco de mordeduras e arranhaduras e abre caminho para o contato com carrapatos e pulgas, e a orientação segue sendo não alimentar e não tocar.

Por que um projeto piloto e o que ainda não se sabe
Ninguém conhece com precisão o tamanho da população, a estrutura demográfica, as características genéticas ou o alcance das interações com a fauna e a flora locais. Um piloto permite testar procedimentos em escala reduzida, acompanhar a resposta dos animais e corrigir rumos antes de qualquer ampliação. O grupo técnico trabalha com a lógica de conhecer, monitorar, avaliar e adaptar.
A bióloga da Floram, Priscilla Tamioso, explica que cada animal manejado gera dados para medir a efetividade da estratégia. São essas informações que podem indicar, com base científica, se vale ampliar as ações.
Vasectomia, microchip e soltura no mesmo local
Antes da captura, o grupo discutiu protocolos e instalou armadilhas fotográficas em pontos de habituação. No dia 26 de setembro, quatro machos passaram por vasectomia, número considerado o mínimo para avaliar o piloto. Todos receberam microchip e marcação temporária e foram soltos onde haviam sido capturados, sem intercorrências.
Segundo a médica veterinária Laura Tonon, responsável técnica pelo projeto, nenhum animal saiu da Ilha ou foi eutanasiado. Manter os quatis no local evita o estresse do transporte e da separação do grupo, além de reduzir o risco de exposição a agentes infecciosos externos em uma população insular. Os pontos intradérmicos diminuem a chance de o animal mexer na ferida e dispensam uma segunda captura.
Parceiros e próximos passos do manejo de quatis
O Grupo de Trabalho Ilha do Campeche iniciou as reuniões em novembro de 2025 e já soma 19 encontros, além de visitas técnicas e da elaboração de protocolos. Participam Floram, IBAMA, Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA), Instituto Ilha do Campeche (IIC), UFSC, UNISUL, Centro Veterinário Oncológico e Cirúrgico (CVOC) e PUCRS.
Quando uma ação inédita faz manejo de quatis no Campeche, os dados da primeira etapa ganham peso nas próximas decisões. Somados ao monitoramento, eles devem orientar a continuidade da estratégia, e a intenção é ampliar o projeto a partir do próximo ano, com informações consolidadas.